Publicado na revista Amazônia Em Questão - 1ª de quinzena de fevereiro/2003

ESTAMOS COM FOME

 

A Amazônia já foi muitas vezes “convocada” e “desafiada” para algumas missões pela Pátria.

Vejamos:

A construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, foi uma verdadeira epopéia na então impenetrável selva. Estima-se que para cada dormente assentado, 05 homens tenham morridos vitimados pela febre amarela e malária, controlada quando da vinda de Osvaldo Cruz, para in-loco tomar medidas sanitárias urgentes. A meta dos idealizadores,  vindo de longe, era fazer o escoamento de nossas riquezas naturais, sempre elas, pelo Pacífico, atravessando o Peru.

A extração do rico e estratégico látex das nossas seringueiras,indispensável ao preparo bélico das nações envolvidas nos grandes conflitos mundiais, foi outra demonstração de heroísmo do amazônida e do nordestino, expostos a toda sorte de dificuldades, penetraram mato a dentro e, pagando com a própria vida, foi satisfeita a vontade dos “magnatas”. Aliás, projetos do governo e de megalomaníacos para a Amazônia, foram tantos, a custa do sacrifício do povo, com a cessão de enormes áreas de terras, isenções fiscais, subsídios, franquias alfandegárias, etc. Se tudo fosse relatado, teríamos grande compêndio da nossa história.

Lembremos os mais “arrojados”: Forlândia, Belterra, Núcleo Tomé Açu, Jarí (Ludwig), Estrada Perimetral Norte (do Amapá até a Venezuela, interligando todo o lado esquerdo do Rio Amazonas), são alguns.

E os protocolos de “intenções” firmados com aquela ex-estatal, cujas letras invertidas lê-se LEVA?

Ótimo para seus donos, mas para os paraenses, só resta mesmo (antes de exaurir), o título pomposo de Primeira Província Mineral do Brasil.

Na pauta fiscal do Pará (base para cálculo de impostos) observa-se no passado quanto significou para nós o extrativismo da castanha do Pará (hoje do Brasil), das resinas e das sementes oleaginosas.

Sem política de governo e os produtores (ou coletores) entregues à própria sorte, acabaram por cessar suas atividades, sem, contudo, deixar de registrar a tristeza e indignação que nos envolve, sobretudo pela derrubada criminosa de castanhais inteiros, objetos da cobiça de muitos, sequiosos em arrancar o máximo de lucro da natureza e do solo da Amazônia.

Porque não lembrar “anos d’ouro” vividos pelas populações ribeirinhas, quando da cultura da jutanas várzeas e da malva no sertão, que propiciaram renda significativa para os bravos “julticultores”?

Como sempre, aqui nada foi feito para transformar a região em palco produtivo perene com a agregação de valores. Não passamos de tímidos passos no setor de alguma sacaria, logo suplantada por setores avançados não só na técnica, como com forte capital subsidiado e surgimento de poderosos concorrentes de outras matérias primas e maciça importação de fibras. Pode?

E o que vimos? As populações rurais, com mais esta débâcle, se transferiram para os centros urbanos, sob os falsos acordes do canto da sereia, onde passaram a formar fileira dos excluídos urbanos.

Por tudo isto e muito mais a abordar, nós, caboclos da Amazônia, estamos com fome de uma política desenvolvimentista real e definitiva, cessando assim estes permanentes experimentos, que nos fazem afundar no mundo das ilusões, somente superadas pelo desejo ardente, revivido com o sonho da sociedade fraterna e feliz que tanto perseguimos, como povo valente, que tem nome, sobrenome e endereço: Residente Rio Abaixo, Bairro dos Sonhos, cujo CEP nos dá as iniciais de Contra Esta Política, só do leva.

Artigo publicado no Jornal "A Provincia do Pará", de 14 de outubro de 1997 

CÍRIO - NÃO A DESIGUALDADE

Belém se engalana toda, para reverenciar no CÍRIO, a Mãe de Deus, sob a invocação de Nossa Senhora de Nazaré. A gigantesca manifestação de fé, originada de pequenas romarias e procissões, talvez seja hoje o maior evento católico do Mundo. Plácido, o bom caboclo paraense, quando encontrou a pequenina imagem de Maria, às margens de um igarapé às proximidades do local onde está erguida a majestosa Basílica de Nazaré, longe estava de pensar que foi o escolhido para perpetuar nestas plagas da Amazônia, o culto fervoroso  a Senhora de Nazaré, a medianeira de todas as graças. e acima de tudo, a aliança que Deus estabelece com este povo que integra esta legião de cristãos que daqui do  setentrião pátrio se soma ao coro das palavras de Jesus.

A festa é bela ! A demonstração de amor é algo  indescritível. É a festa da igualdade. Todos mais próximos de Nossa Senhora, como em um verdadeiro delírio de massa, com milhares de pessoas que se arrastam pelas ruas de Belém, como que uma grande boiúna, serpenteando os rios da Amazônia. Todos sentem algo maravilhoso talvez por ocorrer a transformação da multidão, a mais eloqüente vontade de Deus, que é o da igualdade.

Ninguém é maior ou melhor que seu semelhante. Todos são iguais. E isto o CÍRIO consegue realizar. Lamentável que nem bem se desfaça a procissão, as posturas e comportamentos de muitos voltem a ser o mesmo: procedimento anti cristão, sem ao menos lembrar os recentes momentos de reflexão e promessas de bondade elevados na passagem da belíssima berlinda transportando a imagem da Rainha Mãe de Deus.

O CÍRIO deve ser para o Pará e seu povo, não apenas os momentos de alegrias que ninguém consegue esconder, das lembranças do passado, do compulsivo choro diante da grandiosidade divina. Deve o CÍRIO em honra a Nossa Senhora de Nazaré, em Belém do Pará, servir como exemplo da força e determinação de um povo, muito bem representado pelo extraordinário exemplo dado pelos que se unem em torno da Mãe de Deus, agarrados em uma corda, como agarrados todos devem ficar, na esperança da vida eterna onde todos serão, diante do Senhor, julgados pelo feito e pelas omissões aqui praticados.

O paraense, herdeiro da valentia e do talento caboclo , tem na sua fé e no seu amor por Nossa Senhora de Nazaré o bálsamo lenitivo, que o faz  possuidor de um espirito tão forte, que chega a ser estóico, mas não renega a sua crença e a sua origem, razão talvez que o faça superar as dificuldades, transformando-as em uma perseverança inigualável.

Que o CÍRIO/97 de Nazaré, marque uma nova era nas vidas dos paraenses, com uma igualdade perene e não somente durante o percurso da grande manifestação.

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